Lagarta Lanuda

segunda-feira, outubro 30, 2006

Quando acordei esta manhã tinha dezasseis emails de felicitações. Até a CP me deu os parabéns.
Dezasseis! (bom, quinze, se descontarmos o da CP). É muita gente.
Não que eu me esqueça habituamente, porque vos trago a todos numa caixinha que não largo, mas hoje, claro, lembro-me com mais força de cada um de vós e dos beijaços que vos daria se estivesse aí. É que são muitos anos de vida - convosco.
Por isso, queria agradecer o vosso carinho e dar-vos, via lagarta, o maior dos abraços.
Obrigada a todos.
Obrigada CP.

domingo, outubro 22, 2006

O my god, you're stealth-dating

Deixem-me falar-vos do complicadíssimo mundo do dating.
Eu nem sei por onde hei-de começar; há tantas regras e são tantas as conclusões que podemos retirar de um first date, que (até) eu me perco.
Primeiro há neste país uma coisa fantástica e que me deixa aliviadíssima e com imenso tempo para fazer outras coisas no intervalo dos dates. É que cabe aos rapazes (pensam eles, coitados) fazer a grande pergunta que é you wanna go out? (e nas suas variantes: we should have coffee sometime; you wanna have dinner this weekend?; e a minha all-time favorite you wanna go to the movies?). Às meninas só resta dizer sim ou não, timidamente de preferência. É óptimo. Antes disso, claro, o momento em que nos pedem o número de telefone ou, nesta era avançadíssima, o endereço de email. A gente dá, pois claro. Timidamente. Mal sabem eles, pobres.
Depois o date propriamente. Eles chegam sempre a horas. De bicicleta ou de carro. De carro é melhor. Como diz a minha amiga Liz, always date a guy with a car (aqui fechadas no campus, ora não). Cumprimentam com um aperto de mão. Não dizem the f-word, pelo menos não no primeiro date. Querem saber o que os europeus pensam do povo americano (eu não digo a verdade, estragava logo tudo). Falam de cinema porque sim.
Saímos para jantar às seis e às dez tá tudo despachadinho. A tempo de ler uns artiguinhos para o dia seguinte. Never kiss on a first date é a regra de ouro, diz a Liz. E eu cumpro à risca (não há nada escrito sobre beijos no segundo date..). Never call him afterwards, let him call you first, é a segunda regra. Fácil. Até porque não tenho telefone.
Depois de vários dias de input teórico (a Liz é óptima professora) e de algumas experiências in loco, posso dizer que já domino a técnica na perfeição.
Por isso é que não estava à espera quando a Liz hoje saltou dez lições na arte de dating e foi directamente para os capítulos em anexo. Aparentemente, e não fosse eu estar em Silicon Valley, há ainda uma outra forma de sair on a date. Stealth-dating. Como o jacto que não se deixa ver nos radares. Tal e qual. Então, stealth-dating é quando saímos com alguém sem que nos tenham feito a pergunta sacramental que mostrei acima, ou pelo menos uma das suas não menos incríveis variantes. Não apertamos a mão, não temos conversas maçadoras, não temos de telefonar amanhã nem dar beijinhos (só se quisermos muito), divertimo-nos imenso (normalmente estes são os melhores dates) mas, ó maldição, não é um date. É só hanging out. E imensamente ofensivo para uma rapariga, diz a Liz, porque não foi convidada para sair e porque, digo eu, a coloca numa grey area, numa posição de grande ambiguidade, e a ambiguidade tem de ser inexistente para um americano. Não digo isto com qualquer ironia. É assim, ponto final.
Não há flirting. Há dating e hanging out. Há dates e buddies. O resto é conversa.
Eles só não contavam é com uma lagarta portuguesa.
Que adora conversar.

sábado, outubro 21, 2006

A Lagarta foi a San Francisco. Por fim.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Phishing

Hoje comi peixe pela primeira vez num mês.
Hoje acabei o primeiro volume de O Capital de Marx.
O modo de produção da minha barriga, capitalista, estranhou, não sei se um, se o outro.

sábado, outubro 14, 2006

Don't you have any nicer pants?

E com esta pergunta deliciosa o meu amigo Jose (cidadão colombiano, cinco anos de resolução de problemas matemáticos pela frente aqui em alcatraz) e eu (cidadã portuguesa, três meses; com bom comportamento, um ano, e posso ver a família no natal) explodimos a rir, boca cheia e tudo, era o jantar. Frango.
A nossa amiga Sara (cidadã americana, Texas, mais precisamente, a dois anos do fim da pena, informática) começou a ficar aflita quando o Jose e eu lhe provámos por a mais b (com a matemática, e com o Jose, não se brinca, tem de ser sempre assim, bem explicadinho) que sim, era com a roupinha que tínhamos sobre o corpinho que íriamos apresentar-nos no fantástico dance club desta noite. Alberto's Night Club, medo. Em Mountain View, a meio caminho entre o campus e S. Francisco (aqui tenho de abrir parênteses ( ) e dizer que sair do campus para ir até Mountain View, a vinte kms mais ou menos de S. Francisco, numa sexta à noite, pode parecer um pequeno passo para vós, concidadãos (que pena é a vossa?), mas para nós, todos californianos de empréstimo, habituados ao quentinho das bibliotecas de Stanford, é um passo de gigante. Sobrehumano. Desumano.)
A roupa que tínhamos, e temos ainda, sobre o corpinho era, claro, calças de ganga, ténis, t-shirt. A minha, verde lagarta, como não. E olhávamos um para o outro e não entendíamos porque é que não podia ser. You look perfectly datable to me, dizia eu a Jose. Ele ria e concordava comigo. A Sara ainda assim não acreditava. E, muito séria, o olhar ao mesmo tempo tão doce e ingénuo e perscrutador como só os americanos conseguem, como se da resposta dependesse o prémio nobel (dois para Stanford este ano, parênteses babado), pergunta a Jose, eu tive sorte desta vez, Don't you have any nicer pants? I mean... For chrissake (esta última parte já sou eu a fazer ficção, além de que queria muito introduzir esta interjeição num post, à Salinger).
De maneira que. Aqui estou. Em casa. A Sara obrigou-nos a trocar de roupa, senão não vamos. E nós queremos muito ir. Por isso vou acabar de escrever depressa. E trocar de roupa. Ver se descubro outras calças de ganga, outros ténis (esta, a parte mais difícil, visto que só tenho uns), e outra t-shirt. Não deve ser difícil encontrar mais uma em verde lagarta.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Erec et Enide

Il dormit et elle veilla;
elle ne ferme pas l'oeil de la nuit,
occupée qu'elle était à retenir les chevaux,
rênes dans la main, jusqu'au lendemain.
Elle n'a cessé de s'accuser et de se maudire
pour la parole qu'elle a prononcée
et reconnaît avoir bien mal agi
et ne pas avoir subi la moitié
de la peine qu'elle méritait:
"Miserable! dit-elle, par quel malheur fallait-il
que je me montre si orgueilleuse et si outrecuidante!
Je pouvais être sûre et certaine
qu'on ne saurait trouver chevalier
égal à mon seigneur ou meilleur que lui.
Je le savais bien et je le sais maintenant plus jamais,
car j'ai vu de mes propres yeux
que trois ou cinq hommes armés ne lui inspirent aucune crainte.
Honnie soit ma langue pour avoir proferé
ces propos orgueilleux et outrageants,
qui m'ont plongée dans une telle honte!"
Elle n'a cessé de se lamenter de la sorte toute la nuit
jusqu'au lever du jour.
Erec s'eveille de bon matin,
ils reprennent la route,
elle devant, lui derriére.

Chrétien de Troyes, Erec et Enide

As mulheres e a culpa. Quantas noites não passámos já como Enide? Arrependidas e envergonhadas de dizer amor cuidado espera.
Chrétien será o autor que definiu o amor, e a forma como amamos ainda hoje, como se defende por estes lados. Se isso significa que, depois de Chrétien, a mulher deve calar e refrear a vontade de dizer amo-te, então hoje culpo Chrétien, não porque ache que as mulheres não dizem já o que sentem, mas porque aos homens ainda é permitido não as escutar.