Lagarta Lanuda

sábado, agosto 05, 2006

Não eram bolas de sabão nem de algodão, mas de pressão, as que vi soprar neste bairro no outro dia.
Pesadas, incomodavam os transeuntes que comentavam baixinho, a bengala a tactear a calçada destruída pelo aterrar das bolas, as suas formas imodestas, o seu flutuar invasivo, os seus desígnios de arqui‑inimigo.
Outro dia passou, depois outro, e no bairro ainda as bolas de pressão.
Os transeuntes comentavam baixinho, os olhos a apontar para o céu, o estado do tempo, e nem reparavam que as bolas ficavam mais leves com vento fraco a moderado. A calçada era agora imediatamente reconstruída, após a aterragem de mais uma bola, por uma comissão designada para o efeito, que nem reparava que as bengalas já não tinham o que tactear. De manhã, as pessoas apanhavam, apressadas, a 28 para o trabalho e se, com o peso do sono, tropeçavam nos sacos de plástico da senhora idosa do banco da frente, pediam “pressão”.
Hoje, os namorados brincam de fingir que se perdem entre as bolas, e os velhotes jogam à bisca sentados em grandes bancos de pressão.
As bolas também aprenderam a aterrar com jeitinho, e até eu escrevo a olhar para uma que acabou de pousar agora mesmo.