Lagarta Lanuda

quinta-feira, agosto 31, 2006

eu não sou da sua rua
eu não sou o seu vizinho
eu moro muito longe
sozinho
estou aqui de passagem

eu não sou da sua rua
eu não falo a sua língua
minha vida é diferente da sua
estou aqui de passagem
esse mundo não é meu
esse mundo não é seu

A Marisa Monte canta como há muito não cantava no meu quarto e, de repente, já não estou no quarto, mas a caminho da tua casa, nos tempos em que tu eras a minha rua; o teu mundo, um colo e um casulo; e as nossas vidas, diferentes.
Afinal estavas mesmo só de passagem.

domingo, agosto 27, 2006

Espalhem a notícia

Porque tenho uma amiga que não acredita que "Espectáculo", do Sérgio Godinho, é a música mais linda do mundo redondo-tangerina que ele nos dá, gomo a gomo, decidi gravar-lhe um cd com essa e outras músicas dele, imbuída que estive, esta tarde, de espírito high fidelity.
Mesmo que ela não venha a mudar de ideias (o que eu acho difícil, dada a qualidade da música e o meu talento para persuadir seja quem for do que for, através de uma técnica de sucesso garantido a que os cientistas americanos chamam nagging), já valeu a pena a tarde de gravações. E ter, principalmente, ouvido outra vez:

eu fui ao fim do mundo
vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar no corpo de uma mulher bonita.

(suspiro)

sábado, agosto 05, 2006

Não eram bolas de sabão nem de algodão, mas de pressão, as que vi soprar neste bairro no outro dia.
Pesadas, incomodavam os transeuntes que comentavam baixinho, a bengala a tactear a calçada destruída pelo aterrar das bolas, as suas formas imodestas, o seu flutuar invasivo, os seus desígnios de arqui‑inimigo.
Outro dia passou, depois outro, e no bairro ainda as bolas de pressão.
Os transeuntes comentavam baixinho, os olhos a apontar para o céu, o estado do tempo, e nem reparavam que as bolas ficavam mais leves com vento fraco a moderado. A calçada era agora imediatamente reconstruída, após a aterragem de mais uma bola, por uma comissão designada para o efeito, que nem reparava que as bengalas já não tinham o que tactear. De manhã, as pessoas apanhavam, apressadas, a 28 para o trabalho e se, com o peso do sono, tropeçavam nos sacos de plástico da senhora idosa do banco da frente, pediam “pressão”.
Hoje, os namorados brincam de fingir que se perdem entre as bolas, e os velhotes jogam à bisca sentados em grandes bancos de pressão.
As bolas também aprenderam a aterrar com jeitinho, e até eu escrevo a olhar para uma que acabou de pousar agora mesmo.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Exercícios de tradução

Como adoro copiar e copiar e copiar as palavras que também gosto de ler; e levo tempos sem fim a transcrevê-las, a olhá-las, a estudá-las, e a tentar uma outra pronúncia, não me custa nada, dá-me aliás muito prazer, mostrar-vos este pequeno texto de Queneau. É um exercício de escrita magnífico, sem outras pretensões, e, se lido em português, é também um exercício de tradução que eu admiro e quero louvar. Os tradutores de Exercícios de estilo de Queneau são Constança Bobone, Hélder Venças Mendes, Maria de Jesus Rodrigues, Maria Luísa Mariante e Marina Maia Ferreira. E fizeram um óptimo trabalho.
Agora a cópia, Bartleby.

Distinguo

Num autocarro (que não deve confundir-se com um alto cargo), vi uma criatura (e não queria uma viatura) com um chapéu (e não um pé de chá) rodeado por uma trança de fio (e não pelo tio de França). Possuía (e não ia ao poço) um pescoço tremendo (e não um tremoço pascendo). No meio da confusão (e não da mão de confeiteiro), um outro indivíduo (e não um índio atrevido) deslocou o supracitado (e não soprou o louco excitado). O segundo ficou piurso (e não o urso picou-se no figo), mas, topando um lugar sentado (e não sugando um lagar tapado), precipitou-se para ele (e não parasitou a sua prole).
Mais tarde, tornei a vê-lo (e não enervei o tolo) em frente da estação de Saint-Lazare (e não onde esta acção se desenlaçar) no falatório com um camarada (e não no cartório com uma fada marafada) acerca do botão do casaco (que é preciso não confundir com o cotão do buraco).


Raymond Queneau, Exercícios de estilo, Colibri, 2000.