Lagarta Lanuda

quinta-feira, julho 06, 2006

Dennis McShade, por fim.

Eu sei que tenho de estudar. Eu sei. Mas encontrei-o, ao Dennis McShade, esgotadíssimo, editorialmente falando, na prateleira de uma biblioteca e não pude deixar de o trazer para casa. E de o ler mais depressa do que Maynard diria "onde está a minha Beretta". Andava há muito tempo atrás deste alias de Dinis Machado e, agora que o encontrei, não o largo mais. Quer dizer, tenho de o devolver à biblioteca, mas antes copio, à Bouvard e Pecuchet, e guardo para mim, alguns dos melhores parágrafos do Mão Direita do Diabo, de 67, pulp fiction à lisboeta, cheia dos monólogos interiores torturadíssimos do herói Maynard que mata sem remorsos, de mulheres de unhas pintadas e nomes esquisitos, de uma Chicago feia e bruta, e de citações literárias, como a gente gosta, ad nauseam.
Noutro dia em que decida estudar muito muito muito, talvez leia Requiem para D. Quixote (67) e Mulher e arma com guitarra espanhola (68).


Levantei-me e olhei para o espelho. «Quando Lilly disse que tinhas de fazer a barba, observou algo de verdadeiramente concreto. Tu, Maynard, és um idiota chapado, daqueles que devia ser proibido existirem, porque atrasam a própria vida e a dos outros. Estás com febre, rapaz. Precisas de um termómetro, de uma injecção, e cama. Mas deixa-te estar assim, perante a própria agudeza dos sentidos, ferindo-te neles a cada movimento que fazes, ferindo-te mais por cada tentativa de libertação. Libertação de quê, Maynard? Não sejas estúpido e encara as coisas como elas são. E de uma vez para sempre. Libertação não é nada. Livre é o mar (Camus). E o gosto das citações, ah, o gosto das citações. Quando não te citas a ti próprio, o que é de um mau gosto incrível, citas os outros, o que é uma irremediável estupidez, porque não é coisa nenhuma. Tu és tu, Maynard, só tu, sombra perdida do corpo, à espera de o recuperar com comprimidos para o estômago, Beethoven, os braços de Olga, uma cor azul sobre todas as coisas, de um azul desbotado ou de um azul-forte, as tonalidades românticas do teu temperamento perdido entre continentes de pessoas, as que te pagam, as que procuras com o silenciador enfiado na Beretta, as outras, que não são coisa nenhuma, “bom dia”, “Maynard é um duro”, “Maynard é a autêntica mão direita do diabo”. Eu diria, rapaz, que és a mão esquerda de Deus. Uma pessoa procura assemelhar-se à imagem que inventam dela, e depois é um esforço muito grande, há que espalhar um pouco de justiça por todas as coisas, que a mão esquerda de Deus é o que está certo, como o negativo de uma fotografia, que está certo ao contrário.»

Dennis McShade, Mão direita do Diabo, pp.155-6

quarta-feira, julho 05, 2006

(sigh)

Num mundo perfeito, há cartazes de belle por toda a cidade a anunciar um concerto para breve, a Cesária Évora canta bésame mucho e eu já não me rio, a Gelsomina está à nossa espera e guarda-nos numa caixinha onde se pode chorar, eu esqueço-me de fazer asneiras, mas tropeço ainda, os beijos sabem a chocolate, como as mousses, e o rio espera para ver.
Lisboa está assim perfeita. E tu também.

sábado, julho 01, 2006

They'll always have Shakespeare

E depois dos penaltis um soneto de Shakespeare. Porque este blog não pode, por causa de um campeonato mundial de futebol, perder de vista o seu pendor snobbish e um tudo-nada pseudo-intelectual. Ah, isso é que não.
Os Ingleses que não fiquem tristes, afinal sempre terão Shakespeare.
Mas a lagarta também.


CXXXV

Whoever hath her wish, thou hast thy Will,
And Will to boot, and Will in overplus;
More than enough am I that vex thee still,
To thy sweet will making addition thus.
Wilt thou, whose will is large and spacious,
Not once vouchsafe to hide my will in thine?
Shall will in others seem right gracious,
And in my will no fair acceptance shine?
The sea, all water, yet receives rain still,
And in abundance addeth to his store;
So thou, being rich in Will, add to thy Will
One will of mine, to make thy large Will more.
Let no unkind, no fair beseechers kill;
Think all but one, and me in that one Will.