Lagarta Lanuda

terça-feira, abril 25, 2006

A barra da nossa saia

Há sempre qualquer coisa de especial nas manhãs de 25 de Abril. Não sei se por ser feriado, se por ser O feriado, ou se porque vesti pela primeira vez em meses uma blusinha de alsas azul férias e estive ao sol numa esplanada a esturricar e a folhear o jornal, a verdade é que esta manhã, e o resto do dia, espero, foi gloriosa.
Para começar, o sol, sempre o sol, e o céu azul a beijar os meus cactos e a minha buganvília já enorme. Depois o café. Deixou a casa com cheiro a Brasil ou Colômbia ou Timor e canela. Depois a certeza de que acabou o frio e a chuva, e para o provar, a blusinha azul.

O rio da minha cidade não estava cinzento, a lembrar o Liffey irlandês, nem cinzentas as pessoas que, ao sol nas esplanadas, sorriam gomos de laranja e bebiam o final do Inverno.
As mesas do meu café preferido estavam todas ocupadas e eu perguntei, em inglês, a um senhor cor-de-rosa se podia sentar-me na sua mesa. O senhor respondeu you most certainly can e depois mas pode falar comigo em português. Era muito simpático e muito cor-de-rosa. Emprestou-me o Público e eu emprestei-lhe um World Politics in the Twentieth Century que ando a ler porque.. me meto em cada uma..

Conversámos muito enquanto o sol nos queimava e o tempo abrandava. O senhor tinha viajado muito e contava bem histórias. Depois chegaram dois turistas de um cor-de-rosa ainda mais refinado, em vão disfarçado pelos bonés, e perguntaram, em inglês, se se podiam sentar. You most certainly can. Continuámos a conversar, o meu novo amigo e eu, desta vez sobre a Austrália. Perth, porque não? dizia eu, sempre a meter-me em cada uma.. E estávamos em meio de concluir que o melhor de tudo era mesmo a nossa terrinha, snif snif, onde é que se vê lá fora um sol destes? E as ameijoas? E os figos, os coentros, o mar, as migas com entrecosto, o bacalhau, o vinho, meu deus, o vinho, o 25 de Abril, e as esplanadas espreguiçantes? Os turistas procuravam um restaurante sem turistas, frequentado pelos locals, you know, traditional portuguese cuisine, get it? Os locals éramos nós, portanto. Senti-me como se tivesse um chapéu de feltro preto na cabeça e um lencinho por baixo, para proteger do sol (pensando bem, até não era má idea, torrava-se), e uma saia rodada com barra preta, à tia anica. Well, turn left, then right, etc, there you'll find a fine grilled fish place. No, no, calamares fritos, disseram, e o meu novo amigo e eu abrimos muito os olhos piscos de tanto sol português e dissemos, a uma só voz, como se estivéssemos a cantar o Grândola Vila Morena, isso é em Espanha, meu.
Pois é, as manhãs de 25 de Abril são sempre especiais, encantatórias e deslumbrantes. O nosso país sabe mais a nós e parece-nos sempre que podemos agarrá-lo pela cintura e convencê-lo a dançar o corridinho. Mesmo que nos peçam calamares fritos em inglês.

segunda-feira, abril 17, 2006


Acabadinha de chegar de Marrocos.
Quando tiver digerido o azul Majorelle, a terracota e o açafrão, o verde menta e a laranja, tentarei escrever.
É que, por enquanto, só me saem arabescos.

quarta-feira, abril 05, 2006

Fleeing green caterpillars

Fleeing green caterpillars, 2006?, oil on canvas, 64,8x95,3cm, colecção particular.

«Os ténis preferidos da autora - experientes em viagens, como se pode ver pelo seu aspecto desgastado e cansado - encontram-se inclinados para o canto inferior direito da imagem, de modo a sugerir um movimento de largada, fortemente suportado pelo facto de um dos sapatos se apresentar já ligeiramente fora de campo. Os críticos situam esta obra no período que antecede a partida da autora para Marrocos, pensa-se que em Abril de 2006. A sua estadia neste país irá ser determinante para o consolidar de uma nova fase na sua vida artística, a conhecida fase Azul Majorelle, já tão distante das pinceladas toscas que caracterizavam a fase Verde Lagarta.
Pouco se sabe da viagem da autora a Marrocos. Quem a acompanhou ou o que por lá Fez intriga ainda os críticos especializados nesta autora. No entanto, o estudo aprofundado da sua vasta biografia e uma análise cuidada das obras do período pós-Marrocos permitem concluir que esta viagem foi um turning point na vida pessoal e profissional da autora, acima de tudo pelo reencontro com o continente africano, de onde, afinal, provém.»

Ivana Out O'Here, Some of the strangest authors of the XXI century, s.e., Colónia, Taschen, s.d., pp.56-57.

terça-feira, abril 04, 2006

Volver

Volver,
con la frente marchita,
las nieves del tiempo
platearon mi sien...
Sentir
que es un soplo la vida,
que veinte anos no es nada,
que febril la mirada
errante en las sombras
te busca y te nombra.
Vivir
con el alma aferrada
a un dulce recuerdo,
que lloro otra vez...
Volver, Carlos Gardel, Alfredo Lepera, 1935

Volver

Eu acho que quando se gosta muito de um filme se sai em silêncio da sala. No caminho para casa pouco se fala ou, na impossibilidade de isso acontecer – e para mais sendo mulher, às vezes lagarta, e das tagarelas – fala-se de outras coisas. Ri-se, bebe-se até uma cervejinha com o amigo que nos acompanhou ao cinema, mas guarda-se um silêncio que é respeito e admiração pelo que se acaba de ver.
Depois o filme adormece connosco e acorda e volta a adormecer. Os dias passam e nós não nos esquecemos, mas também ainda não conseguimos lembrar.
Em breve pensamos na melhor maneira de transmitir aos outros o quanto gostámos do filme. Mas não queremos estragar tudo com banalidades ou exageros. Mentalmente fazem-se mil posts sobre o filme, que logo se apagam porque nunca chegaram a ser escritos.
Dizemos «remotamente imposible». E sorrimos.
Um dia damos connosco a entoar o tema principal do filme pela rua. Outro dia, ouvimo‑lo na rádio e reconhecemo-lo aos primeiros acordes. Esperamos que a música não acabe nunca e que consigamos aprender de cor todo o poema.
Certa manhã achamos que já conseguimos escrever sobre o nosso filme. Começamos. Nada. Se ao menos pudesse ouvir aquela música outra vez.. E descobrimo-la no site oficial do filme, nada difícil, afinal.
Agora a escrita.
Talvez agora.
Ainda nada
que diabo
Talvez um chá
Outra vez a música
Outro chá
A foto dela agora
Que chora a cantar
O refrão lindo de morrer
E depois de o ler cem vezes, escrever para quê?