Lagarta Lanuda

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Ana Luísa Amaral

LUGARES COMUNS

Entrei em Londres
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também,
e eles até tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e parte da Irlanda e aquelas
ilhotazitas, mais adiante)

Entrei em Londres
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia (isto é só para quem não sabe
fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era
mesmo muito manhoso,
não é que fosse mal intencionado, era manhoso
na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha
suja. Muito rasca.

Claro que os meus preconceitos todos
de mulher me vieram ao de cima, porque o café
só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate
(se fosse em Portugal era sandes de queijo),
mas pensei: Estou em Londres, estou
sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses
até nem se metem como os nossos,
e por aí fora...

E lá entrei no café manhoso, de árvore
de plástico ao canto.
Foi só depois de entrar que vi uma mulher
sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me
mais forte, não sei porquê, mas senti-me mais forte.
Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e
depois eu

Lá pedi o café, que não era nada mau
para café manhoso como aquele e o homem
que me serviu disse: There you are, love.
Apeteceu-me responder: I’m not your bloody love ou
Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois
pensei: Já lhes está tão entranhado
nas culturas e a intenção não era má, e também
vou-me embora daqui a pouco, tenho avião
quero lá saber

E paguei o café, que não era nada mau,
e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta
a ver a tribo toda a comer ovos e presunto
e depois vi as horas e pensei que o táxi
estava a chegar e eu tinha que sair.
E quando me ia levantar, a mulher sorriu
Como quem diz: That’s it

e olhou assim à sua volta para o presunto
e os ovos e os homens todos a comer
e eu senti-me mais forte, não sei porquê,
mas senti-me mais forte
e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,
que em toda a parte
as mesmas coisas são

Ana Luísa Amaral, «Lugares Comuns», in Coisas de partir, Gótica

domingo, janeiro 15, 2006

passeio de domingo

Esta manhã, o rio da minha cidade estava cinzento, da cor do céu. Tinha começado a chover, por isso fechei o casaco, abri o guarda-chuva e tive saudades da Irlanda. O rio da minha cidade era, de repente, o River Shannon em Limerick, e foi bom voltar a ter Frankie McCourt ao pé de mim, agora que acabei o livro. Depois, o rio da minha cidade foi o Liffey, de Dublin, O’Connel Street a norte, Trinity College a sul. Agora, a ponte sobre o rio era, acreditem, Ha’ penny Bridge e sorri, como sorri todas as vezes que a atravessei de verdade. Esta manhã não vi leprechauns nem a estátua do Cuchulain mas a chuva de hoje sobre o rio da minha cidade era tal e qual a chuva que lá caía sobre nós, lembras-te?
Parou de chover e eu regressei, mas não fechei o guarda-chuva. Para prolongar no cinzento do impermeável o cinzento do rio da minha cidade e de outros rios.

sábado, janeiro 14, 2006

maria sombrinha


eu tenho uma amiga que é muito minha muito gira muito inventiva
ela desenha cria cose malas sacos bolsas que são uma perdição
chama-se maria sombrinha e está aqui

parece que vai haver brincos pulseiras colares daqui a uns tempos
por enquanto só a promessa de missangas cores - beijos?

quinta-feira, janeiro 12, 2006

romromromrom



Não me olhes assim. Ficaste linda. Não discutas, é claro que ficaste. Olha com mais atenção, repara no olhar lânguido, quase preguiçoso. Que provocadora. E o bigode longo como pestanas. Que sensual. Quase diria que podias ser capa de autobiografia de socióloga, de tão linda. Ou modelo no Blow up que passou há dias na tv. Não podes estar a falar a sério quando dizes que não perdoas esta minha indiscrição. Vá lá. É só esta foto. Fá-lo pelo nosso amigo R.G.

terça-feira, janeiro 10, 2006

A Lagarta tem uma casa novinha em folha. Agora passeia-se vaidosa por uma phalaenopsis hybrid.
Apareçam.