Lagarta Lanuda

domingo, outubro 30, 2005

Um, dois, trinta

A Lagarta fez hoje trinta anos. Eu não. Mas comi um bocadinho de bolo por ela.

sábado, outubro 29, 2005

E se Corto Maltese fosse gondoleiro?


José Carlos Fernandes, Lua de papel/Linha do destino

«Acredita no destino?»
«Acredito que as coisas que nos sucedem são irremediavelmente parecidas connosco...»

quarta-feira, outubro 26, 2005

Vermelho aurora, verde lagarta

Desculpe, sabe se o cinema Nimas fica muito longe?
Não, é já ali em frente. Também vai ver o Murnau?, perguntei porque estava bem‑disposta e porque o sinal continuava vermelho.
O Murnau? Não, vou ver o Aurora.
Ah, claro, disse eu, já arrependida da minha metonímia pretensiosa.
Parece que é muito bonito.
Sim, parece que sim, anuí.
E antigo, dos anos sessenta.
É ainda mais antigo, é dos anos vinte.
Ah, sim? Tão antigo?
Sim, é mudo e tudo.
Mudo?
Aí assustei-me. Pensei que pudesse ter arruinado o entusiasmo da minha companheira de sinal fechado e acrescentei Mas tem música.
Pois, pois.
Não disse que era a preto e branco.
O sinal abriu. A senhora parecia continuar tão entusiasmada como antes, despediu‑se e avançou em direcção ao Nimas. Suspirei de alívio. Eu avancei também, feliz com as surpresas de um sinal fechado, com o calor de uma tarde que afinal abriu, com esta cidade onde as pessoas param e falam do Sunrise, com a certeza de mais um post escrito, logo que encontre o meu bloco notas.

Doc Log

Boa indicação de blog que recebi, http://doc-log.blogspot.com/, da Leonor Areal. Óptimo o seu último post, precisamente sobre o Gosto de ti como és. A não perder. O blog e o doc.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Gosto de ti como és, Lisboa

O meu amigo espreitou ensonado à janela e perguntou Bora onde? Bora ao Doclisboa, repeti eu. Sobe. Subi a correr, para que ele nem tivesse tempo de responder Não à minha pergunta. Respondeu Sim, e lá fomos. Contentes, mas a ouvir Bob Dylan e Nick Drake pelo caminho, que é a nossa forma muito estranha de mostrar contentamento.
Ainda chegámos a tempo da Masterclass com o Ross McElwee, fantástico, e do Three rooms of melancholia, que não comento para não influenciar aqueles que o forem ver na 3ª ao CCF.
O domingo, passámo‑lo inteirinho a ver os documentários premiados, e a ver o grande auditório da Culturgest encher, encher a abarrotar e esgotar, em todas as sessões.
And the winners were (ex-aequo)… Before the Flood, de Yan Yu e Li Yifan, e Alimentation Générale, de Chantal Briet.
Mas, para mim, e para os amigos que estavam comigo também, tenho a certeza, os grandes vencedores foram Falta‑me, da Cláudia Varejão, e Gosto de ti como és, da Sílvia Firmino. Gostei tanto destes dois filmes, mas tanto tanto, que, no caso do segundo, até me emocionei, e uma lágrima marota saltou, com a vitória da Marcha Popular do bairro da Bica. Chamem-me mariquinhas, mas se conhecessem o Américo, a Fátima, a Catarina ou o Diogo que a Sílvia nos mostra, no seu documentário justamente bi‑premiado, marchantes de faca na liga e de língua afiada como só os lisboetas dos bairros populares conseguem ser, saberiam do que estou a falar. E mais não digo. Como diz outro amigo meu, está tudo dito a favor de um filme quando ele nos faz derramar umas quantas lágrimas no escurinho do cinema.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Childish things

Antes de fechar a porta disse Até logo, Meme, e a bichinha ficou a olhar para mim com olhinhos de quem sabe que eu vou demorar. Mesmo assim, fechei a porta, desci as escadas e corri para o comboio. Não me lembro se já estava acordada. Acho que sim, porque a minha cama não é fria como uma terça‑feira de madrugada, mas também acho que não, porque ainda sentia os teus braços a aconchegarem‑me. Sonho, talvez.
Três horas depois escolhi acordar porque tinha chegado à faculdade.
No regresso, pedi à Edith Wharton que me fizesse companhia. Ela acedeu e mostrou‑me «The valley of childish things», um conto que aqui transcrevo porque acho criminoso parafraseá‑lo. Valente Wharton, que em 1896 já sabia muito mais do que a Carrie, a Samantha, a Miranda e a Charlotte todas juntas.

The Valley of Childish Things

Once upon a time a number of children lived together in the Valley of Childish Things, playing all manner of delightful games, and studying the same lesson books. But one day a little girl, one of their number, decided that it was time to see something of the world about which the lesson books had taught her; and as none of the other other children cared to leave their games, she set out alone to climb the pass which led out of the valley.

It was a hard climb, but at length she reached a cold, bleak tableland beyond the mountains. Here she saw cities and men, and.1earned many useful arts, and in so doing grew to be a woman. But the tableland was bleak and cold, and when she had served her apprenticeship she decided to return to her old companions in the Valley of Childish Things, and work with them instead of with strangers.

It was a weary way back, and her feet were bruised by the stones, and her face was beaten by the weather; but halfway down the pass she met a man, who kindly helped her over the roughest places. Like herself, he was lame and weather-beaten; but as soon as he spoke she recognized him as one of her old playmates. He too had been out in the world, and was going back to the valley; and on the way they talked together of the work they meant to do there. He had been a dull boy, and she had never taken much notice of him; but as she listened to his plans for building bridges and draining swamps and cutting roads through the jungle, she thought to herself "Since he has grown into such a fine fellow, what splendid men and women my old playmates must have become!".

But what was her surprise to find, on reaching the valley, that her former old companions, instead of growing into men and women, had all remained little children.
Most of them were playing the same old games, and the few who affected to be working were engaged in such strenuous occupations as building mudpies and sailing paper boats in basins. As for the lad who had been the favorite companion of her studies, he was playing marbles with all the youngest boys in the valley.

At first the children seemed glad to have her back, but soon she saw that her presence interfered with their games; and when she tried to tell them of the great things that were being done on the tableland beyond the mountains, they picked up their toys and went farther down the valley to play.

Then she turned to her fellow traveller, who was the only grown man in the valley, but he was on his knees before a dear little girl with blue eyes and a coral necklace, for whom he was making a garden out of cockleshells and bits of glass and broken flowers stuck in sand.

The little girls was clapping her hands and crowing (she was too young to speak articulately); and when she who had grown to be a woman laid her hand on the man’s shoulder, and asked him if he did not want to set to work with her building bridges, draining swamps, and cutting roads through the jungle, he replied that at that particular moment he was too busy.

And as she turned away, he added in the kindest possible way, “Really, my dear, you ought to have taken better care of your complexion”.


Decididamente, quando comprar o meu primeiro Cavell, compro também um creme anti-rugas.

domingo, outubro 16, 2005

Iogurte de framboesa com pedaços de lula


Finalmente alguém partilha da minha estupefacção perante o ritmo frenético com que hoje se misturam sabores e texturas e bifidus nos iogurtes (e, já agora, sumos, águas e tisanas).
Nas fábricas de iogurtes – que devem ser tal e qual a de chocolate do Willy Wonka – os cientistas devem andar atarefadíssimos a ensaiar, a dar a provar (conta quem sabe que eles nunca provam o que inventam, pudera), e a patentear os seus projectos, de sabor a grainha de uva e atum de cebolada, prova de que a imaginação humana não tem, de facto, limites.
Na zona do frio, no supermercado, fico estarrecida, perplexa, assustada mesmo, no momento da escolha do iogurte ideal. Há dias, encontrei escondido um de morango. Simples, sem pedaços, sem bifidus, sem cereais, cor-de-lanche-preferido-de-irmão-mais‑ novo-enquanto-brinca-com-os-clics. Estava quase a conseguir tirá‑lo da prateleira – tive de estender bem a mão por entre uns iogurtes de coco e feijão-frade e outros de muesli e couve‑flor – quando outra mão, mais rápida e desesperada do que a minha, fez passar o iogurte, num travelling lento lento, pelos meus olhos de espectadora desapontada até ao seu cesto de compras. Eu ainda disse, em voice‑over, que saborear aquele iogurte me faria, momentaneamente, matar as saudades do meu irmãozinho emigrante, mas ninguém me ouviu. E o iogurte ficou no cesto da senhora feliz, a olhar para mim em contra‑picado.
Até hoje, pensei que só eu sofresse e me risse em segredo com as fantásticas mudanças que se operam no universo dos lacticínios, mas não. Encontrei a minha alma‑gémea dos produtos alimentícios. É o Miguel, que ocupa o espaço Coisas Públicas na revista do Público de Domingo. Num mundo de iogurtes perfeitos e esquecidos nós somos o tutti‑frutti. Mas um bocado perdidos entre a abóbora, o aloé‑vera e as sementes de girassol.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Moleskine #4

Só depois de Marta é que soube que a vida existia. Só depois de esta sessão terminar é que poderei, rindo ou chorando, ter a certeza que vivi. Agora não. Melhor, só vivo quando tiver passado o primeiro minuto, depois de o experimentar e usar como se fosse o último.
A pausa de Marta reverbera no tumulto que estou eu. Ela confessa o mundo aos seus pecados e eu redimo-me. Perdoo-lhe a leviandade. E continua. Eu paro.
Visitou-me esta noite. Pediu-me que a escrevesse ainda. E contou uma história sobre gotas. De tinta? Acordei a fingir e fiz-lhe a vontade.

quinta-feira, outubro 13, 2005

Moleskine #3

Ontem chegou aqui mais inquieta do que o costume. Trazia o vestido preto que ilustrava o luto que a despe, apanhou o cabelo, para domar a fera, e, pela primeira vez em meses, não traçou o risco escuro nos olhos que me fazia brincar e chamá‑la Cleópatra.
Fechou a porta e dirigiu-se para a janela aberta, miragem de tempestades e gaivotas. Ela. Não a janela.
Não falava, não desta vez. Dir-se-ia que, pelo contrário, escutava. Marta escutava o sol, o vento, o rio. Devia estar de olhos fechados, adivinho-o sem certezas, sentado que estava atrás da fortaleza que é agora a minha secretária. Aguardei. Sustive a minha e ouvi a sua respiração. Sem que eu o esperasse, começou a falar. O passado é que é a vida, disse. Só do passado se vive. Só depois de cair a gota a laranja a estrela, só depois de nos darem o lá, só depois de lido o poema. Só depois é que sabemos que vivemos. Marta pausa. Eu continuo.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Moleskine #2

Ainda assim, Marta gostava de falar. Comigo. Não o sabia fazer quando me procurou. Falava com o mar, dizia, a respeito de um passado que os nossos encontros tinham apagado, falava com um violino que, solitário, fiava a única resposta que aceitava, o silêncio. Não gostava que eu lhe respondesse. Os comentários técnicos impacientavam-na. Por isso eu calava-me. E encontrava-me ao escutá-la.
Pouso a caneta. Difícil inventar-me um narrador que não seja um espelho meu. Fecho os olhos por um instante e um mundo novo revela-se-me. O cansaço que me invade chega a saber bem. Deixo-me embalar, enfim, neste torpor oásis-quase de solos de piano e algodão doce. Morno. Não adormeço. Não acordo. Tenho medo de cair e esquecer e lembrar que a vida é cinzenta e vazia, outra vez. Não caio, seguro-me bem. Agarro-me a esta réstia de tempo onde as coincidências fazem sentido, onde o mundo gira no sentido dos ponteiros do relógio. Onde tu. Existes.
Receio pegar na caneta outra vez. A página em branco é o meu cabo das tormentas, Adamastor, não encontras repouso nunca. É também o meu porto seguro, a minha casa. A primeira página já não o é. Branca, quero dizer. Agora a segunda. Marta insiste. Convoca‑me todas as noites. Chama-me pelo nome. E, contudo, não a conheço, nunca a vi. Escrevo-a. Sou ditado.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Moleskine #1

Nos últimos dias tinha aprendido a gostar de olhar pela janela. Nunca, outrora, tinha sentido o prazer de perder os olhos pelos azuis e sépias que se desdobravam à sua frente. Também, nunca antes a vida lhe tinha oferecido tais tons. Sequer uma janela.
O que tinha sido a sua vida senão uma sucessão de portas fechadas? Não, entreabertas. As portas entreabertas, lembrava-se, eram as piores. Sereias, cujo canto iludia o mais facundo, ofereciam-lhe as certezas mais ambíguas, as razões mais esfíngicas.
Em flashes rápidos, cortantes pela dor que causavam, recebia, do mais profundo de si, memórias da vida que não tinha vivido. Para esquecer, lembrava o quanto gostava do alto dos edifícios mais altos e de pontes em parêntesis, porque lhe mostravam mundos que não o seu.
Um dia falou-me do fogo. Do dia em que incendiara cartas e manuscritos velhos, escritos por ela para um eu que queria que nascesse para a proteger. Tinha frio do mundo e por isso o fez. A cada vez que se revelava nestas reminiscências, ficcionadas, acredito agora, mergulhava naquele mundo onde ela era somente ela. Nem mulher nem Marta. Apenas a terra, o pão, o linho.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Saudaaaaaade

Saudade de passar as mãos pelo teclado enquanto as palavras não chegam, saudade dos bastidores, e não do palco, onde a minha lagarta se esconde até estar pronta, saudade do nervoso miudinho antes do enter que lança a minha lagarta na rede e a afasta de mim, saudade de escrever escrever escrever.
Saudade de me lembrar como.