Lagarta Lanuda

quinta-feira, junho 30, 2005

O fim da ameixa



A vida tem coisas muito boas, não me canso de o repetir.
Uma é o ácido que fica na boca depois do fim da ameixa.
Outra é poder mordiscar ameijoas e ostras ao pôr do sol de uma vila piscatória do Algarve.

segunda-feira, junho 27, 2005

New York New York



Outra grande cidade.
Os pontinhos vermelhos, maçãs cristalizadas no desejo e na vontade de desaparecer anónimo.
Os pontinhos verdes, lagartas frutadas que correm, sem saber, para a vertigem do sabor a caos.

quinta-feira, junho 23, 2005

Partida, lagarta, fugida



A vida, lagarta lanuda, corre tão depressa que, na maior parte das vezes, nos esquecemos de parar, respirar e olhar pela janela. Qualquer uma.
A minha janela hoje tem vista para o Tejo.
Um pouco de rio em tempo de mar.

quinta-feira, junho 16, 2005

Manolo, ¿me copias?

Manolo não copiava. Perdeu‑se nos montes alentejanos à procura de sombra mas a sombra fugia‑lhe, mesmo de saltos altos. A sombra queria sol e vento nos cabelos e fiesta. Mas no Alentejo o sol queima muito, o vento prefere agitar as vinhas e não os cabelos das meninas, e a festa, à noite, no largo da igreja, é demasiado parecida com as que há no pueblo onde nasceu. Há farturas em vez de churros. Mas nenhuns sinais de Ibiza.

Manolo trazia ao pescoço uma geringonça de cor it’s a sony (mas não era), uma espécie de transístor‑atendedor‑de‑chamadas que o deixava permanentemente em contacto, no Alentejo, com o príncipe da gata borralheira que tivesse o par daquele gadget‑maravilha. Assim de simples. Bastava carregar num botão, fazer um ar de piloto de caça‑bombardeiro num filme de Hollywood e dizer Do you copy, Manolo? em espanhol. Só que, do lado de lá, não havia resposta, agora que Manolo tinha decidido seguir a tal sombra.

Enquanto Manolo seguia a sombra, o Alentejo seguiu o sol, depois a lua, depois o sol outra vez. De manhã, os alentejanos velhos já estavam sentados nos bancos do largo ou já emolduravam com os seus corpos encostados as casas brancas de serpentes azuis. De manhã, o senhor Amílcar abria devagarinho as portas, cansadas da festa de ontem, do estabelecimento azul tinto e cor de queijo.

A vila mexia, ao ritmo do calor e do domingo, e Manolo quis comprar o jornal. Qual? O El País de hoje? Ah, não, o El País de hoje só chega amanhã.
Manolo sem sombra e sem jornal.

terça-feira, junho 14, 2005

Para acabar de vez com a androginia


A minha amiga Li acabou a tese sobre o Orlando. Para ela, e só para ela, a carinha laroca da Polly Jean. O que eu não faço pelos amigos ;)

A foto é da Rita Carmo.

Essa folha

Essa folha, aí. Tão branca que nem a neve é assim fria. Aproximo os dedos numa espécie de carícia, tentando atenuar, diluir tanta hostilidade, mas logo recuam tocados pelo medo. É tão difícil. Porque essa brancura queima, arde silenciosa num fogo que ninguém vê. Durante muito tempo só os olhos a procuram, a contemplam. Imóveis, sem afrouxarem de intensidade. Ouvem-se quase os latidos do pulso. De súbito, os dedos distendem-se, saltam; no seu movimento de falcão já não acariciam, antes rasgam, dilaceram, perseguem a presa numa luta onde não há tréguas, vão deixando na neve sinais da sua presença, ora triunfante ora aflita, por vezes quase morta.
Eugénio de Andrade, «Essa folha», Vertentes do olhar, 1987.

segunda-feira, junho 06, 2005


Let's tame the shrew!

sábado, junho 04, 2005

Blossomed caterpillars


Borboletas, Alice Geirinhas

Todas as lagartas sonham borboletas.
Mais aqui e aqui.

quinta-feira, junho 02, 2005

Folha verde lagarta


Então, não escreves nada?
Ó pá, não consigo. Não vês que de repente ficou tudo a preto e branco? Menos a folha que tenho em frente. Essa continua de uma cor só. Branquíssima.
O problema deve ser da folha, com certeza. Já experimentaste escrever numa verde lagarta?