Lagarta Lanuda

quarta-feira, maio 04, 2005

Travelling light

Quando tem tempo, a Lagarta gosta de viajar. Hoje sobraram-lhe uns minutinhos entre a largada das borboletas novas e a hora do chá, por isso correu em direcção a Praga. De Praga a Berlim é um instantinho, pensou, e seguiu viagem. Em Berlim acreditou que talvez ainda desse tempo para chegar a Copenhaga, e continuou. Sempre quis conhecer Estocolmo, disse baixinho, talvez aproveite agora. Em Estocolmo sentiu a terra tremer, o vento soprou forte e fez uoushhhhh, e os miosótis, que já são uma flor pequena, ficaram reduzidos a pontinhos lilases, quase invisíveis. A Lagarta não se assustou. Alguém deve ter pegado no velho mapa-mundo outra vez, é o costume, logo agora que estava a chegar a Oslo. Fez-se bolinha, um truque de defesa pessoal que o bicho‑de‑conta lhe tinha ensinado, e deixou-se cair na relva, longe do gato e do rato. Para a próxima vou a Nova Iorque, disse enquanto sacudia o pó da estrada dos ombros. Até lá, releio Fonollosa.

FIFTH AVENUE

Me niego a hacer sonetos. Su estructura
- dos anchos ataúdes de cuartetos
y otros dos más delgados de tercetos -
los muestra adustos, serios de figura.

O semejan barrotes de una dura
prisión de endecasílabos sujetos
por rimas consonantes; obsoletos
modelos del rigor. ¿Poesía pura?

Mayormente son versos preparados
a medida del molde y presentados
con un burdo remedo de la música.

Abjuro de sonetos donde sobra
o falta espacio para expresar la obra
en su justa extensión, la exacta, la única.

José María Fonollosa, Ciudad del hombre, New York