Lagarta Lanuda

terça-feira, maio 17, 2005

Conto da noite escura

Mariana reencontrou no céu, onde agora é rainha devota das suas próprias palavras, o cavaleiro de Chamilly. Contou-lhe, então, no feno ainda quente de os esconder de nenhum convento, o que tinha visto.

Maria caminhava depressa. Estava já atrasada, por isso voava, reiventando Lisboa, como se a cidade palavras fosse, plena no pouco sentido que faz. Quando chegou, afinal adiantada, sentou‑se e esperou pelas irmãs. Tinha para lhes contar algo que tinha visto.

Dinis cruzou-se com Maria, no Chiado, apesar de não o saberem. Só eu. Ele descia do seu Bairro, Alto depois da história que lhe ofereceu, e vinha a pensar no rapaz. Ensimesmados, criadores para mim, não se viram. Pena. Com tanto que tinham para dizer e eu para registar.
Dinis prosseguiu, portanto. Também ele tinha um compromisso. Esperava-o, mas sem pressas, mais-valia da eternidade, David, cantor dessa Lisboa de bairros altos, fadistas roucas e mulheres incógnitas. O cemitério, àquela hora, estava vazio e, assim, pôde Dinis contar a David o que tinha visto.

Por culpa do destino, ou de uma narradora muito manipuladora, foi ao mesmo tempo que Mariana, Maria e Dinis disseram «Dois amantes». Pausa. O que se seguia era matéria para os sentidos e havia que ordenar pensamentos e emoções. Respirar fundo. Repetir. Continuar. «Dois amantes reencontraram-se ontem à noite, já quase hoje de madrugada. Eu vi. Perseguia contos na noite escura e, quando achava que não ia encontrar mais do que o pardo dos gatos, vi o beijo, primeiro depois do último, de dois amantes reencontrados. A pele a arrepiar-se-me tantas horas depois, vê, como se fora eu a receber esse beijo. Ainda lembro o quente voraz de querer abarcar num só tantos beijos que ficaram por dar. Ainda lembro o húmido das mãos a quererem ir mais longe.»
«Meu cavaleiro.»
«Minhas irmãs.»
«Meu amigo.»
«Conto não encontrei. Tão-pouco o pardo dos gatos. Mas recebi este beijo que agora relembro e revelo, na esperança de que alguém, para além de nós, me ouça e, querendo, passe para o papel – escritor, esse sim, de longas cartas – este momento que, adivinho-o, é já cristal.»

2 Comments:

At 09:59, Anonymous the Moth disse..

A lagarta anda a deixar saudades nos meandros das couves blogosféricas... A lagarta já foi mais trabalhadora... A lagarta já deu mais prazeres às borboletinhas que ansiavam letrinhas arrumadas, dispostas em U,Q,R,X,P..
As lagartas hibernam?? ;)

 
At 10:11, Anonymous Anónimo disse..

Lagarta, "A Mão Invisivel" não está nos teus favoritos? ó lagarta, andas mesmo distraída.

 

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