Lagarta Lanuda

terça-feira, maio 31, 2005

Being Charlie Kaufman writing endlessly



Ever want to be someone else? Pergunta o cartaz que tenho mesmo aqui ao lado e cujo canto superior esquerdo insiste em se descolar e desenrolar como o papel de parede do Barton Fink. Sim, respondo, mas não digo quem.

sábado, maio 28, 2005

Serendipity

Diz o dicionário que é "the fact of something interesting or pleasant happening by chance". Para mim, é um filme de Sábado à tarde com o John Cusack (lovely John...); o nickname de eleição no msn da minha amiga Lisa Olive; e agora também o nome de um blogue que acabei de descobrir via Babugem. Chama-se, claro, Serendipity, e é a prova de que os felizes acasos existem.

Episodio del enemigo

Tantos años huyendo y esperando y ahora el enemigo estaba en mi casa. Desde la ventana lo vi subir penosamente por el áspero camino del cerro. Se ayudaba con un bastón, con un torpe bastón que en viejas manos no podía ser un arma sino un báculo. Me costó percibir lo que esperaba: el débil golpe contra la puerta. Miré, no sin nostalgia, mis manuscritos, el borrador a medio concluir y el tratado de Artemidoro sobre los sueños, libro un tanto anómalo ahí, ya que no sé griego. Otro día perdido, pensé. Tuve que forcejear con la llave. Temí que el hombre se desplomara, pero dio unos pasos inciertos, soltó el bastón que no volví ver, y cayó en mi cama, rendido. Mi ansiedad lo había imaginado muchas veces, pero sólo entonces noté que se parecía, de un modo casi fraternal, al último retrato de Lincoln. Serían las cuatro de la tarde.
Me incliné sobre él para que me oyera.
—Uno cree que los años pasan para uno —le dije— pero pasan también para los demás. Aquí nos encontramos al fin y lo que antes ocurrió no tiene sentido.
Mientras yo hablaba, se había desabrochado el sobretodo. La mano derecha estaba en el bolsillo del saco. Algo me señalaba y yo sentí que era un revólver.
Me dijo entonces con voz firme:
—Para entrar en su casa, he recurrido a la compasión. Lo tengo ahora mi merced y no soy misericordioso.
Ensayé unas palabras. No soy un hombre fuerte y sólo las palabras podían salvarme. Atiné a decir:
—Es verdad que hace tiempo maltraté a un niño, pero usted ya no es aquel niño ni yo aquel insensato. Además, la venganza no es menos vanidosa y ridícula que el perdón.
—Precisamente porque ya no soy aquel niño —me replicó— tengo que matarlo. No se trata de una venganza sino de un acto de justicia. Sus argumentos, Borges, son meras estratagemas de su terror para que no lo mate. Usted ya no puede hacer nada.
—Puedo hacer una cosa —le contesté.
—¿Cuál? —me preguntó
—Despertarme.
Y así lo hice.
Jorge Luis Borges

quinta-feira, maio 26, 2005

Semiótica aplicada

A Marinha Portuguesa está a preparar a nova época balnear, que começa no próximo dia 1 de Junho. Substituiu o velho slogan «Há mar e mar, há ir e voltar» pelo moderníssimo «Ir e voltar só depende de si», um incentivo ao livre arbítrio de todo e qualquer banhista. Alterou também os ícones de alerta e de recomendação. Estes são alguns dos que podemos encontrar, a partir de agora, nas praias portuguesas. A legenda em baixo ajudará à leitura nem sempre fácil dos desenhos.

Se se encontrar em apuros no mar, agarre-se às letras SOS em tamanho gigante que surgirão automaticamente sobre a sua cabeça. O nadador-salvador controlará, de longe, o evoluir da situação: "distroce, distroce, agora tudo para a direita".


Tenha cuidado com os monstros marinhos que comem banhistas incautos de 3 em 3 horas.


Não beba Martinis nem Cosmopolitans na praia. Por mais hip que isso possa ser, mentalize-se: você não é a Carrie Bradshaw nem o Sexo e a Cidade se passa no Guincho.


Se vir quatro bandeiras de cores distintas dispostas em linha recta na praia, não se atrapalhe: significa que só pessoas com fatos de banho daquelas cores podem frequentar a praia. O nadador-salvador estará lá para garantir a inexistência de trafulhices por parte de banhistas cromaticamente mal equipados.


Se praticar natação sincronizada na praia, faça-o de modo a ser visto pelo nadador-salvador. Ele conhece as pessoas certas e conseguirá levá-lo aos próximos mundiais. Use fato de banho verde bandeira.


Incuta nas suas crianças o espírito de ser português. Coloque-se à beira-mar e recite a Praia das Lágrimas d'Os Lusíadas. Cause inscrição.

terça-feira, maio 24, 2005

A emissão segue dentro de instantes


el perfume que lo impregna todo

A Lagarta não hibernou, não. Com este sol? Impossível. Anda, sim, ao sol do som de outras luzes. Já volta. Ou não.

terça-feira, maio 17, 2005

Conto da noite escura

Mariana reencontrou no céu, onde agora é rainha devota das suas próprias palavras, o cavaleiro de Chamilly. Contou-lhe, então, no feno ainda quente de os esconder de nenhum convento, o que tinha visto.

Maria caminhava depressa. Estava já atrasada, por isso voava, reiventando Lisboa, como se a cidade palavras fosse, plena no pouco sentido que faz. Quando chegou, afinal adiantada, sentou‑se e esperou pelas irmãs. Tinha para lhes contar algo que tinha visto.

Dinis cruzou-se com Maria, no Chiado, apesar de não o saberem. Só eu. Ele descia do seu Bairro, Alto depois da história que lhe ofereceu, e vinha a pensar no rapaz. Ensimesmados, criadores para mim, não se viram. Pena. Com tanto que tinham para dizer e eu para registar.
Dinis prosseguiu, portanto. Também ele tinha um compromisso. Esperava-o, mas sem pressas, mais-valia da eternidade, David, cantor dessa Lisboa de bairros altos, fadistas roucas e mulheres incógnitas. O cemitério, àquela hora, estava vazio e, assim, pôde Dinis contar a David o que tinha visto.

Por culpa do destino, ou de uma narradora muito manipuladora, foi ao mesmo tempo que Mariana, Maria e Dinis disseram «Dois amantes». Pausa. O que se seguia era matéria para os sentidos e havia que ordenar pensamentos e emoções. Respirar fundo. Repetir. Continuar. «Dois amantes reencontraram-se ontem à noite, já quase hoje de madrugada. Eu vi. Perseguia contos na noite escura e, quando achava que não ia encontrar mais do que o pardo dos gatos, vi o beijo, primeiro depois do último, de dois amantes reencontrados. A pele a arrepiar-se-me tantas horas depois, vê, como se fora eu a receber esse beijo. Ainda lembro o quente voraz de querer abarcar num só tantos beijos que ficaram por dar. Ainda lembro o húmido das mãos a quererem ir mais longe.»
«Meu cavaleiro.»
«Minhas irmãs.»
«Meu amigo.»
«Conto não encontrei. Tão-pouco o pardo dos gatos. Mas recebi este beijo que agora relembro e revelo, na esperança de que alguém, para além de nós, me ouça e, querendo, passe para o papel – escritor, esse sim, de longas cartas – este momento que, adivinho-o, é já cristal.»

segunda-feira, maio 16, 2005

Monday morning

Para depois de um Domingo...

DE CADA VEZ

Contínua realidade que me sorves os dias
como hei-de responder-te se vives incluída
dos meus olhos abertos nas ávidas e frias
pedras incertas vida

prisioneira do espelho que embacias
de cada vez que a turva suicida
torna ao morrer visíveis
as formas com que comes os meus dias
Gastão Cruz

sexta-feira, maio 13, 2005

Medidas extremas


Julio Cortázar, Fantomas contra os vampiros multinacionais, Teorema

Fantomas convoca Cortázar, Paz, Moravia e Sontag. Eu também.

quinta-feira, maio 12, 2005

The state i am in


B&S

Dia sim, dia sim, não há nada como ouvir uma musiquinha (ou a discografia completa, porque não?) dos Belle and Sebastian. Ou talvez haja. Ver o dvd Fans only, documento incontornável para quem, como eu, gostaria que os dias tivessem mais horas só para poder ficar a ouvi-los sem parar, e não fazer mais nada--
Stuart D. - que, juntamente com o outro Stuart, o que canta, fez parte da formação inicial da banda, tudo boa gente de Glasgow - decidiu parar de tocar baixo e passar antes a ser escritor, go figure. Mas, antes de partir, disse umas coisas bem giras on the telly:

I used to have a camera called a Zenith but i gave it to Karn and she used to take photographs of pavements for a while but when i went to get the camera back she said there was a bit of dirt in the lens. To make it up for it, she gave me a really good pen she had. A spacepen. The instructions said it was the most advanced writing instrument in the world and it was designed for astronauts to use on their way to the moon. It can write upside down, over grease and fingerprints, in blazing heat and even under water. So i took that. I wasn't planning on going to the moon but i thought maybe i could sell it to buy a new camera. But it didn't turn out to be worth much. So in the end i decided what i would do is, i would just take photographs with the pen instead. I would just write the picture down, and it turned out quite well.

Para dar mais realismo à leitura, acrescentar pronúncia escocesa.

Looking forward


Mark Tansey, Forward

Então, não dizes nada?
Ó pá, não consigo, estou a olhar para este Mark Tansey.

quinta-feira, maio 05, 2005

Hierbabuena

Se perguntassem agora à Lagarta como te chamas, ela responderia Hierbabuena. Mesmo não gostando de hortelã.

MEMENTO

(Caña y Soleá de Triana)

Cuando yo me muera,
enterradme con mi guitarra
bajo la arena.

Cuando yo me muera,
entre los naranjos
y la hierbabuena.

Cuando yo me muera,
enterradme si queréis
en una veleta.

¡Cuando yo me muera!
Federico García Lorca

Call me Umberto Eco

E se um dia ao acordar nos tivesse fugido a lembrança do nosso próprio nome? E se, à pergunta como te chamas, respondêssemos prontamente... Nick Adams?
A Giambattista Bodoni aconteceu algo de muito semelhante. Respondeu um dia:
«-Chamo-me Arthur Gordon Pym.
- O senhor não se chama assim.
Certamente Gordon Pym era outra pessoa.
-Podem chamar-me… Ismael?»

Umberto Eco, A misteriosa chama da Rainha Loana

Às vezes, tudo parece fazer sentido.

quarta-feira, maio 04, 2005

Travelling light

Quando tem tempo, a Lagarta gosta de viajar. Hoje sobraram-lhe uns minutinhos entre a largada das borboletas novas e a hora do chá, por isso correu em direcção a Praga. De Praga a Berlim é um instantinho, pensou, e seguiu viagem. Em Berlim acreditou que talvez ainda desse tempo para chegar a Copenhaga, e continuou. Sempre quis conhecer Estocolmo, disse baixinho, talvez aproveite agora. Em Estocolmo sentiu a terra tremer, o vento soprou forte e fez uoushhhhh, e os miosótis, que já são uma flor pequena, ficaram reduzidos a pontinhos lilases, quase invisíveis. A Lagarta não se assustou. Alguém deve ter pegado no velho mapa-mundo outra vez, é o costume, logo agora que estava a chegar a Oslo. Fez-se bolinha, um truque de defesa pessoal que o bicho‑de‑conta lhe tinha ensinado, e deixou-se cair na relva, longe do gato e do rato. Para a próxima vou a Nova Iorque, disse enquanto sacudia o pó da estrada dos ombros. Até lá, releio Fonollosa.

FIFTH AVENUE

Me niego a hacer sonetos. Su estructura
- dos anchos ataúdes de cuartetos
y otros dos más delgados de tercetos -
los muestra adustos, serios de figura.

O semejan barrotes de una dura
prisión de endecasílabos sujetos
por rimas consonantes; obsoletos
modelos del rigor. ¿Poesía pura?

Mayormente son versos preparados
a medida del molde y presentados
con un burdo remedo de la música.

Abjuro de sonetos donde sobra
o falta espacio para expresar la obra
en su justa extensión, la exacta, la única.

José María Fonollosa, Ciudad del hombre, New York

domingo, maio 01, 2005

Jorge e Glicínia no Lethes


Glicínia Quartin

A Lagarta já gostava muito do Jorge Silva Melo. Adorava o António, um rapaz de Lisboa - no cinema e no teatro - do JSM. Adorava o Harold Pinter e a Sarah Kane do JSM. A Cornucópia e os Artistas Unidos do JSM. As crónicas no Mil Folhas - especialmente as que evocavam a Lisboa desaparecida que a Lagarta nunca chegará a conhecer - do JSM.
A Lagarta já gostava muito do Jorge Silva Melo. Não era preciso que o Conversas com Glicínia fosse tão enternecedor, tão sóbrio, tão generoso, tão intimista, tão genuíno. Ou era?