Lagarta Lanuda

sexta-feira, abril 29, 2005

Dia Mundial da Dança


Botero

Quando dançamos, querido, esqueço o tempo, a noite e a morte.
Quando dançamos, querida, o fado é tango, o chão é tablado, a luz é desejo.

sábado, abril 23, 2005

Report on the shadow industry


Georgia O'Keeffe

My friend S. went to live in America ten years ago and I still have the letter he wrote me when he first arrived, wherein he describes the shadow factories that were springing up on the west coast and the effects they were having on that society: «You see people in dark glasses wandering around the supermarkets at 2 a.m. There are great boxes all along the aisles, some as expensive as fifty dollars but most of them only five. There's always Musak. It gives me the shits more than the shadows. The people don't look at one another. They come to browse through the boxes of shadows although the packets give no indication of what's inside. It really depresses me to think of people going out at two in the morning because they need to try their luck with a shadow. Last week I was in a supermarket near Topanga and I saw an old negro tear the end off a shadow box. He was arrested almost immediately.»
Peter Carey, «Report on the shadow industry» in Collected stories

Bom dia do livro!

sexta-feira, abril 22, 2005

Bloco notas

Estás a dormir? Sim. Que horas são? Quatro e meia. É cedo. Dorme. Vou ligar o rádio. Acendo a luz? Não é preciso. Dorme. Não posso. Ainda pensas naquilo? Sim. De facto, foi estranho. Achas que sim? Pois. Mas tinhas dito que não. Mas pensei melhor e mudei de ideias. E mudaste assim? Assim. Vou à cozinha, apetece-te alguma coisa? Obrigado. É que fecho os olhos e vejo aquilo, sabes? Compreendo. Não pensei que me afectasse tanto. Tenta descansar, queres um chá? Eu ia à cozinha. Eu vou. Não vás, antes quero um beijo. Um beijo, então. Outro. Outro. Achas que vai passar? O quê? Este rever de tudo, nítido como no cinema, ao fechar dos olhos. Acho que vai. De verdade? Sim, agora dorme. Mas, se não posso fechar os olhos. Então conto-te uma estória para que adormeças. Hmm.

Entretanto levanto-me, vou à cozinha e preparo um chá. A minha personagem vai adormecer tranquilamente não tarda. Conheço as estórias da outra e sei que são bem melhores do que as minhas. Enquanto o chá arrefece, recosto-me e preparo-me para ouvir o resto da estória. Terminou. Recomeço eu.

quinta-feira, abril 21, 2005

When the dog bites, when the bee stings --

A Lagarta está um bocadinho triste hoje. Só um bocadinho. Não triste como quando o céu está carregado de nuvens e não chove ou como quando o vento é tão forte que ameaça levar‑nos, a mim e às minhas amigas lagartas, pelo ar. Não triste como quando a lua não aparece na noite mas antes nos seguiu durante o dia ou triste como quando a geada estraga a folha verde e grande que nos serviu de abrigo até ontem. Só um bocadinho triste. Como se a terra não estivesse molhada ou a luz não fosses tu. Mas a Lagarta não gosta de tristezas. Reconhece que às vezes tem de ser, para sentir a falta do riso e da música, mas habitualmente trata muito mal a tristeza; olha‑a nos olhos, deita‑lhe a língua de fora, diz-lhe que se vá embora, e resiste enquanto sacode dos ombros as memórias más e os dias amargos. Nessas alturas pensa em escrever sobre coisas boas. E doces como a dentada na cereja e no alcaçuz. E quentes como as paredes do casulo ornadas de desenhos que as lagartinhas bebés fazem. E tintas de cor como os salpicos da joaninha e os miosótis que crescem.

Gostava de ter por cima da minha cama uma clarabóia para ver as estrelas. Para ver se é verdade o que dizem. Se estão assim tão longe. Vou à janela distante e confirmo. Não.

terça-feira, abril 19, 2005

Exercício barroco


Balthus

«O céu de flores
o jardim de estrelas»
Soror Violante do Céu

Meu Cavaleiro

Nem no céu nem no jardim podem meus olhos perder-se já. Minha alma, pois que tarda o descanso último, amarga no escuro desta clausura fria e pede-me um fio de azul, um desfiar de rosa. Apartada de ti, por mãos insones, algozes de atalaia, só neste papel ensaio o fim da minha dor. Se te escrevo, em breve sei a minha sede adormecida, o quente do peito cerceado. Quiseras tu escrever-me também... Conheço, contudo, os meus inimigos e sei que as tuas guerras se vencem no longe. E no silêncio. Perdoa a demanda.

Tua,

Mari a na

segunda-feira, abril 18, 2005

Conversa de seda fiada

Cara lagarta-da-fruta

Estou um bocadinho triste. Um 4, de 1 a 10. Farta de mim. E do meu fala-barato. Podes deixar de gostar de mim (só um bocadinho). Eu deixo umas trezentas vezes ao dia, aquelas em que não estou a fingir que sou forte. Agora compreendo por que dizem que a conversa é como as cerejas. Não consigo parar de fazer nem uma nem outra coisa. Quer dizer... agora não estou a falar, e também não estou a comer cerejas. Hmm. Mas seja como for estou a inutilizar letras e a amargar como uma vermelhinha mas enganadora que provei ontem.

Vem aí um pássaro grande, daqueles que nos comem, não sei o nome. Vou-me esconder. Já voltei, o perigo passou.

Relendo... só escrevo asneiras. Adiante. Reparei que ontem não te deixei falar quando me vieste visitar ao meu casulo. Tinhas decerto algo de interessante para dizer, mas eu não quis ouvir... não me lembrei de te ouvir. Deviam ter-me dito, há já muitos anos, que eu não poderia ser professora de borboletinhas ou locutora de rádio ou comentadora desportiva, principalmente durante os mundiais de cem metros-casulo, ou qualquer coisa assim onde se fala rapidamente e vertiginosamente porque depois chego a casa e não consigo parar de falar e se não há mais ninguém por perto é a Meme que tem de me ouvir e ela até o faz coitadinha que é tão minha amiga e tudo e até tem perguntado por ti e manda beijinhos serão entregues mas se alguém me vem visitar então está tudo perdido e nunca me disseram que isto ia ficar para sempre de maneiras que é assim. Uff.

Às vezes gostava de tirar férias das palavras. O meu irmão, lepidóptero já, diz que tem sons, música, a fazer barulho constantemente na cabeça, a interpelá-lo, a insistir. Diz que é muito cansativo e extenuante, tem sempre a cabeça cheia, até a dormir. Eu tenho esta coisa das palavras que tomam forma e tudo, são a três dimensões, de muitas cores, feias como nós ou lindas como a mais linda mariposa. O kit vem em três línguas da UE. É de fácil instalação. Mas impossível de desmontar.

Toda esta verborreia desequilibrada é, por isso, minha lagartinha-da-fruta, um pedido de desculpas pelas tropelias que faço e pelas que, adianto-me já, estão ainda por vir.

Beijos tantos quantos os pezinhos da centopeia.
Um pouco de silêncio.

A Lagarta

quinta-feira, abril 14, 2005

Million Dollar Baby


Night windows, Edward Hopper

Million Dollar Baby - assombroso.
O plano exterior do diner onde se servia a melhor tarte de limão caseira - depois de a comer podia-se morrer e ir para o céu - ainda hoje me faz lembrar Hopper. E o cheiro a limão confunde-se com a luz e o calor do quadro de um e do filme de outro.

quarta-feira, abril 13, 2005

Quando tudo o mais falha

Quando tudo o mais falha, quando se escreve e até se gosta, quando se relê e se acha abominável, quando se corrige e se apaga, quando se corta e se acrescenta, quando é o êxtase e o desespero, quando se ri alto pela casa e se dança e se canta, quando se chora, quando não lembra comer dormir respirar, quando parece que é o fim, fica a certeza de que este livro oferece, sempre, o calor, o abrigo e o afago da certeza e da esfinge.

Escrevia até soar a meia-noite, e por muito tempo ainda. Mas como riscava tantos versos quantos os que acrescentava, acontecia que o seu número total, no fim do ano, fosse bastante menor que no início, e dir-se-ia que no processo de escrita o poema acabaria desaparecendo por completo.
Orlando, Virginia Woolf

Quando tudo o mais falha, o poema cresce, de tanto se sonhar com ele. Palavra de Lagarta.

terça-feira, abril 12, 2005

Ócios do ofício

O que faz a Lagarta quando impossibilitada de navegar na net? Depois do Boccaccio 70, da inspecção diária aos rebentos verdinhos de não-me-esqueças (miosótis!), dos batidos de morango, ainda arranja tempo para desenterrar cds antigos, de quando era lagartinha lanudinha. Ó vida boa, Lagarta!

This is where your sanity gives in
and love begins.
Never lose your grip,
don't trip, don't fall
you'll lose it all.
The sweetest way to die --

The Cardigans

sexta-feira, abril 08, 2005

Saudaaaade

A Lagarta já chegou de viagem. Infelizmente, assim que chegou, destruiu o acesso à internet de sua casa. Coisas de lagarta inexperiente... Já sedenta de um post, conseguiu convencer um computador amigo a deixá-la matar saudades da blogosfera. Ficou contente e ainda mais lanuda.

O passeio repentino

Quando, ao fim do dia parece que definitivamente nos decidimos por ficar em casa, já vestimos o roupão, após a ceia, à luz da vela, estamos sentados à mesa e pretendemos dedicar-nos a algum trabalho ou jogo, após os quais habitualmente nos vamos deitar, quando, lá fora, está um tempo desagradável que torna o ficar em casa uma coisa natural, quando já estivemos tanto tempo quietos à mesa que ausentar-nos provoca o espanto geral, quando agora também o vão da escada está escuro e a porta da rua trancada, e quando agora, apesar de tudo isto, nos erguemos numa imquietação repentina, mudamos de roupa, aparecemos vestidos para a rua e declaramos termos de sair, o que fazemos após curta despedida, e dependendo da rapidez com que batemos a porta acreditamos ter causado mais ou menos irritação, quando chegados de novo ao beco, com os membros que obedecem com especial flexibilidade a esta inesperada liberdade que lhes proporcionámos, quando, através desta resolução singular sentimos concentrar-se em nós toda a capacidade de resolução, quando reconhecemos com mais significado do que o habitual que temos mais força do que necessidade para operar e suportar melhor a mais rápida mudança, e quando andarmos assim pelas longas vielas, então estaremos por esta noite totalmente apartados da nossa família, tê-la-emos convertido em ilusão, enquanto que nós próprios, seguríssimos, negros contornos, esticando a articulação das pernas, nos erguemos para a nossa verdadeira estatura.
Tudo se acentua ainda mais, quando a esta tardia hora nocturna visitamos um amigo, para saber como está.

Franz Kafka, Reflexões