Lagarta Lanuda

quarta-feira, março 30, 2005

Até amanhã

Como a Lagarta não deve conseguir, nos próximos tempos, fazer os seus posts diários, ela antecipa já, com um poema lindo lindo, o dia de amanhã.

Fado Alexandrino

Amanhã chegaste à minha vida
e disseste bom dia e era noite lá fora
puseste-me na mesa o prato da comida
acenaste-me adeus e não te foste embora.

E como era manhã vestiste o meu pijama
tomaste um comprimido para dormir acordada
como era hora de almoço chamaste-me para a cama
como era hora da ceia bebeste-me ensonada.

E quando temos frio aquecemos à lua
as mãos que penduramos na corda de secar
quando mais roupa trazes mais eu te sinto nua
e quando mais te calas mais te sinto cantar.
António Lobo Antunes

terça-feira, março 29, 2005


A vista preferida da Lagarta. É para lá que vai daqui a pouco. Olé!

The life aquatic with Seu Jorge

Life on mars?

Quando as coisas do coração
não conseguem compreender
e a mente não faz questão
nem tem forças para obedecer

Quantos sonhos já destruí
e deixei escapar das mãos?

Se o futuro assim permitir
não pretendo viver em vão

Meu amor não estamos sós
tem o mundo a esperar por nós
O infinito do céu azul
Pode ter vida em Marte?

Então vem cá, me dá a sua língua
Então vem, quero abraçar você

Seu poder vem do sol,
minha medida

Então vem, vamos viver a vida
Então vem, senão eu vou perder quem sou

Vou querer me mudar para uma life on mars

Seu Jorge, Life on mars? de David Bowie

Made in heaven for someone i know --


The life aquatic with Steve Zissou, Wes Anderson.

segunda-feira, março 28, 2005

Bolero


Qué vanidad imaginar
que puedo darte todo, el amor y la dicha,
itinerarios, música, juguetes.
Es cierto que es así:
todo lo mío te lo doy, es cierto,
pero todo lo mío no te basta
como a mí no me basta que me des
todo lo tuyo.

Por eso no seremos nunca
la pareja perfecta, la tarjeta postal,
si no somos capaces de aceptar
que sólo en la aritmética
el dos nace del uno más el uno.

Por ahí un papelito
que solamente dice:

Siempre fuiste mi espejo,
quiero decir que para verme tenía que mirarte.

Y este fragmento:

La lenta máquina del desamor
los engranajes del reflujo
los cuerpos que abandonan las almohadas
las sábanas los besos

y de pie ante el espejo interrogándose
cada uno a sí mismo
ya no mirándose entre ellos
ya no desnudos para el otro
ya no te amo,
mi amor.

Julio Cortázar


Mark Tansey

domingo, março 27, 2005

Marbles and piracies


you said Is

you said Is
there anything which
is dead or alive more beautiful
than my body,to have in your fingers
(trembling ever so little)?
Looking into
your eyes Nothing,i said,except the
air of spring smelling of never and forever.


....and through the lattice which moved as
if a hand is touched by a
hand(which
moved as though
fingers touch a girl's
breast,
lightly)
Do you believe in always,the wind
said to the rain
I am too busy with
my flowers to believe,the rain answered

e.e. cummings

2/10


Thou shalt not make unto thee any graven image

sexta-feira, março 25, 2005

E o Senhor disse...

Aquele que não perecer pela espada ou pela fome perecerá pela peste.
Porquê fazer a barba?
Woody Allen

quinta-feira, março 24, 2005

Llamame a tu casa para que te abra la puerta

Esta noite sonhei com a Moby Dick. Agoro que bato à tua porta o sonho revisita‑me. Melville era o capitão e perseguia a baleia porque queria oferecê‑la a Ahab que dormia, por fim. Demoras a abrir a porta. Ishmael disse «call me Bartleby» e tu, lá dentro, repetes «I would prefer not to». A porta não abre. Está muito barulho, as minhas personagens fazem muito barulho, não deves ter ouvido a campainha, por isso insisto. Moby Dick tinha olhos de gata e, lânguida, deixava‑se apanhar por Melville, bravo e corajoso a fingir. A porta fechada ainda. Não faz mal, não está a chover – não chove há tanto tempo. Só na tua casa. O sonho não é muito longo, o tempo de três toques de campainha. Acabou. Talvez as minhas personagens me visitem outra vez esta noite. Eu sei que tu não. Quando me afasto da tua porta ouço alguém cantar «llamame a tu casa para que te abra la puerta». Ainda não chove. Mas também não faz sol.

and now for something completely postmodern

A espreitar: Spike Jonze - Being John Malkovich, Adaptation - entrevistado, de forma muito sui generis, por Jonah Kaplan. Aqui.

quarta-feira, março 23, 2005


Rothko

Caterpillars: butterflies drowning wide

Primeira Cópia Limpa

Metódico, John Shade costumava copiar o seu labor diário de versos completos, à meia-noite e, mesmo que voltasse a copiá-los depois, o que suspeito terá por vezes feito, assinalava na ficha ou fichas não a data dos ajustamentos finais, mas a do Rascunho Corrigido da primeira Cópia Limpa. Quer isso dizer que preservava a data de criação e não a de uma segunda ou terceira reflexão. Há um parque de diversões muito ruidoso mesmo em frente do sítio onde estou a morar.
V. Nabokov, Fogo Pálido