Lagarta Lanuda

quinta-feira, janeiro 18, 2007



Desde segunda-feira que tenho pendurado à janela do meu quarto este belo exemplar que aqui vêem da Star Spangled Banner. Não sei se foi, calculo que sim, por causa do aniversário do Martin Luther King que decidiram, o A. e a H., pendurá-la, assim, sem avisar, tão pertinho de território português, mas a verdade é que já lá vão uns dias desde o feriado e a bandeira continua, com aqueles cinquenta olhos estrelados, um pouco gordita, que as riscas horizontais não perdoam, a olhar cá para dentro do meu quarto.

Já colei na parede ao lado da janela um postal do Rossio, ouvi Mariza, Camané, Trabalhadores do Comércio, comi um pastel de nata e outro de bacalhau (não comi nada, mentira, querias), mas nada. À noite tenho pesadelos, acho que o Michael Moore vai entrar aqui, o boné é a bandeira, e entrevistar-nos a todos para o 60 Minutes; depois deixa-nos o Charleston Heston.

Eu sei que não é por mal. Para um americano, a América é tudo, e a bandeira, à qual aprendem a jurar fidelidade desde pequeninos, a expressão máxima desse orgulho amor cegueira, que sei eu?

Melhor fechar a janela. Cerro as cortinas e deixo a bandeira e os juizos de valor lá fora. Entretanto, dou outra trinca no arroz de pato e nos ovos moles. Just in case.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Better yet

Navajo Nation, Arizona.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

The perfect desktop wallpaper


Venice Beach, L.A., California.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Thanksgiving # 2

Assim que chegou de San Diego, Nick perguntou-me como tinha sido o meu primeiro jantar de Thanksgiving. Mais do que ninguém, Nick queria mesmo que eu provasse todas as iguarias que os americanos levam semanas a preparar e que, conta quem sabe, são meeesmo boas. Minutos antes de partir, fez-me decorar a lista de pratos que constam da refeição (eu decorei-a com carinho e a prova é o post anterior, não me esqueci de nada, mesmo com esta memória de lagarta) e explicou que o melhor stuffing é o de pão de milho, as mãos parece que amassam, de preferência feito em casa, dias antes do grande dia; insistiu, o sorriso parece de miúdo de cinco anos, para que eu experimentasse um turkey drumstick, que só as crianças comem; descreveu a consistência, a boca parece que morde, da pumpkin pie perfeita; nem por um segundo hesitou, sabedoria parece de pai, quando perguntei, má, má, se se chama stuffing, porque é que é servido à parte.
Por isso, quando chegou e perguntou como tinha sido o meu primeiro jantar de Thanksgiving, não conseguiu esconder a desilusão quando lhe disse, baixinho, que, afinal, como éramos todos estrangeiros (argentinos, alemães, israelitas, australianos, portuguesa), não tínhamos tido um Thanksgiving tradicional. Mas tinha havido roast chicken, quite good, actually, lembrei-me de acrescentar.
Well, at least it was a bird.
Olhos parece de beijo por dar.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Thanksgiving

Por aqui está tudo apostos para mais um Thanksgiving. Esta semana não há aulas (uff) e aproveitamos para descansar, dormir, passear, preguiçar enquanto esperamos pela quinta-feira, o dia do grande jantar de acção de graças.
Os meus amigos americanos estão agora em Austin,Texas, em Cleveland, Ohio, em L.A., em San Diego, CA, até domingo snif snif. O campus está praticamente deserto. Ficámos nós, os estrangeiros. Stanford é nossa. A língua oficial agora é o espanhol. Alemão. Francês. Hebraico. Português?
Como também temos muito que dar graças (não agradecemos aos peregrinos do Mayflower em especial mas ficamos contentes que eles tenham cá chegado sãos e salvos, sempre é por causa deles que temos estas feriazinhas) vamos juntar-nos todos amanhã, in the city (San Fran, para os nativos), e fazer a festa à nossa maneira. Vamos ter turkey, stuffing, cranberry sauce, gravy, pumpkin pie, não vai faltar nada na refeição mais americana do ano. A acompanhar: os nossos lindos sotaques europeus babilonicamente misturados no fantástico vinho californiano.
Por mim, começo a dar graças hoje mesmo.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Quando acordei esta manhã tinha dezasseis emails de felicitações. Até a CP me deu os parabéns.
Dezasseis! (bom, quinze, se descontarmos o da CP). É muita gente.
Não que eu me esqueça habituamente, porque vos trago a todos numa caixinha que não largo, mas hoje, claro, lembro-me com mais força de cada um de vós e dos beijaços que vos daria se estivesse aí. É que são muitos anos de vida - convosco.
Por isso, queria agradecer o vosso carinho e dar-vos, via lagarta, o maior dos abraços.
Obrigada a todos.
Obrigada CP.

domingo, outubro 22, 2006

O my god, you're stealth-dating

Deixem-me falar-vos do complicadíssimo mundo do dating.
Eu nem sei por onde hei-de começar; há tantas regras e são tantas as conclusões que podemos retirar de um first date, que (até) eu me perco.
Primeiro há neste país uma coisa fantástica e que me deixa aliviadíssima e com imenso tempo para fazer outras coisas no intervalo dos dates. É que cabe aos rapazes (pensam eles, coitados) fazer a grande pergunta que é you wanna go out? (e nas suas variantes: we should have coffee sometime; you wanna have dinner this weekend?; e a minha all-time favorite you wanna go to the movies?). Às meninas só resta dizer sim ou não, timidamente de preferência. É óptimo. Antes disso, claro, o momento em que nos pedem o número de telefone ou, nesta era avançadíssima, o endereço de email. A gente dá, pois claro. Timidamente. Mal sabem eles, pobres.
Depois o date propriamente. Eles chegam sempre a horas. De bicicleta ou de carro. De carro é melhor. Como diz a minha amiga Liz, always date a guy with a car (aqui fechadas no campus, ora não). Cumprimentam com um aperto de mão. Não dizem the f-word, pelo menos não no primeiro date. Querem saber o que os europeus pensam do povo americano (eu não digo a verdade, estragava logo tudo). Falam de cinema porque sim.
Saímos para jantar às seis e às dez tá tudo despachadinho. A tempo de ler uns artiguinhos para o dia seguinte. Never kiss on a first date é a regra de ouro, diz a Liz. E eu cumpro à risca (não há nada escrito sobre beijos no segundo date..). Never call him afterwards, let him call you first, é a segunda regra. Fácil. Até porque não tenho telefone.
Depois de vários dias de input teórico (a Liz é óptima professora) e de algumas experiências in loco, posso dizer que já domino a técnica na perfeição.
Por isso é que não estava à espera quando a Liz hoje saltou dez lições na arte de dating e foi directamente para os capítulos em anexo. Aparentemente, e não fosse eu estar em Silicon Valley, há ainda uma outra forma de sair on a date. Stealth-dating. Como o jacto que não se deixa ver nos radares. Tal e qual. Então, stealth-dating é quando saímos com alguém sem que nos tenham feito a pergunta sacramental que mostrei acima, ou pelo menos uma das suas não menos incríveis variantes. Não apertamos a mão, não temos conversas maçadoras, não temos de telefonar amanhã nem dar beijinhos (só se quisermos muito), divertimo-nos imenso (normalmente estes são os melhores dates) mas, ó maldição, não é um date. É só hanging out. E imensamente ofensivo para uma rapariga, diz a Liz, porque não foi convidada para sair e porque, digo eu, a coloca numa grey area, numa posição de grande ambiguidade, e a ambiguidade tem de ser inexistente para um americano. Não digo isto com qualquer ironia. É assim, ponto final.
Não há flirting. Há dating e hanging out. Há dates e buddies. O resto é conversa.
Eles só não contavam é com uma lagarta portuguesa.
Que adora conversar.